Hipotermia a bordo
Capitão Am Claudia Barth, cirurgiã plástica

23 Jun 2005
A
hipotermia é uma emergência clínica e deve ser imediatamente tratada. Ocorre quando a temperatura corporal cai abaixo de 35 graus centígrados, geralmente após exposição ao frio, não necessariamente a temperaturas extremamente baixas. A queda na temperatura corporal leva a respostas compensatórias como vasoconstricção cutânea (palidez), calafrios e, em temperaturas abaixo de 32 graus, rigidez muscular. Nessa temperatura, ocorre diminuição da frequência cardíaca, da pressão arterial e a respiração torna-se lenta e superficial. Em temperaturas ainda mais baixas, ocorre perda de consciência. Deve-se cuidar para não confundir a hipotermia profunda com a morte, pois o paciente está frio, pálido, inconsciente e com intensa rigidez muscular.

Como complicações da hipotermia, podem ocorrer arritmias cardíacas, edema de pulmão, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, parada cardíaca e respiratória, dentre outras. A mortalidade é alta, principalmente com doenças associadas como intoxicação alcoólica, distúrbios metabólicos (hipoglicemia, hipotireoidismo, p. ex.), desnutrição, etc.

O tratamento da hipotermia leve é o reaquecimento com cobertores ou banhos quentes. Os pacientes intensamente hipotérmicos devem ser tratados em hospital com monitorização intensiva, oxigenioterapia, líquidos aquecidos por via intravenosa para corrigir a hipovolemia, controle do potássio sérico e da acidose metabólica e reaquecidos. Em casos graves, pode ser necessária a hemodiálise para aquecer o sangue externamente ou diálise peritoneal. Doenças associadas devem ser investigadas e imediatamente tratadas.

Sutura a bordo com 22nós de vento
A seguir, apresento uma experiência pessoal, um caso que parece ter sido de hipotermia leve. Em 27 de dezembro de 2003, eu estava a bordo do veleiro VICTOR rumo à viagem dos meus sonhos- velejar pela costa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina até Florianópolis. Confesso que eu estava ansiosa e com medo, sabendo das dificuldades desta travessia.

Nossa saída do Veleiros do Sul foi tumultuada, com um vento sul (de proa) de 22 nós. Logo na saída do clube, assim que subimos a vela grande, a retranca bateu no rosto do meu sobrinho, abrindo um corte no supercílio esquerdo. Como médica de bordo e cirurgiã plástica, decidi fazer a sutura, pois o corte era profundo.

Além do corte, meu sobrinho estava bem. Se ele estivesse com tontura ou perda de consciência, a conduta certa seria voltar ao clube e levá-lo ao pronto socorro. Toda batida na cabeça deve ser investigada, pois há risco de hemorragia intracraniana.
Decidimos continuar a viagem. Após a sutura, assumi o comando do VICTOR. Era um dia quente, apesar do vento. Como estávamos no contravento, respingava muita água no convés do barco. A minha roupa começou a molhar, mas eu não percebi. Anoiteceu e eu continuei no timão do barco.

Formigamento por todo o corpo
Quando entramos na Lagoa dos Patos, era noite e o vento aumentara de intensidade. O comandante , meu irmão André, mandou outro tripulante me substituir, pois eu estava há muitas horas no timão. Quando parei de me movimentar, comecei a sentir frio e percebi que estava toda molhada. Desci para a cabine e troquei de roupa. Eu estava gelada e comecei a sentir um mal estar. Achei que fosse enjôo por ter entrado na cabine com o barco adernado e balançando. A lagoa estava muito agitada naquela noite.
Comecei então a ter formigamentos por todo o corpo. Lembro que as pálpebras e os lábios formigavam muito. Com muita dificuldade, consegui sair da cabine e me deitei no cockpit. Não cheguei a perder a consciência, mas lembro que eu não conseguia me mexer e que meus braços formigavam muito e ficaram contraturados.

Ambulância, hospital, 35ºC
Foi uma confusão a bordo. Estavam todos muito assustados. Pediram ajuda pelo rádio no canal 16, que veio prontamente. Entraram em contato conosco um navio árabe, a Ana Müller, minha colega de curso de capitão amador, e a Cristina Silveiro, a Tina, minha colega de Anchieta, que eu tive a alegria de reencontrar depois de tantos anos. A Tina providenciou uma ambulância, que foi me buscar na Praia da Pedreira. Levamos em torno de duas horas para chegar lá. Aos poucos, fui melhorando. Achei um exagero essa história de ambulância, eu queria continuar a viagem. O pessoal fez questão que eu fosse a um hospital, pelo menos para saber o que tinha acontecido.

Quando entrei na ambulância, eu ainda sentia formigamentos nos braços e nas pernas, mas de fraca intensidade. No hospital, o médico mediu minha temperatura : 35 graus centígrados. O normal é em torno de 36,6 graus. Os exames laboratoriais estavam todos normais. A hipótese diagnóstica mais provável foi hipotermia.

45 nós de vento e ondas de 4 a 5 metros
No dia seguinte, por minha insistência, continuamos a nossa viagem. Conseguimos chegar em Florianópolis com a ajuda de uma frente fria seca - um sudoeste de até 45 nós e ondas de 4 a 5 metros, segundo cálculos do nosso comandante. Quem estava na praia em 31 de dezembro de 2003 na passagem do ano novo deve lembrar do frio e do vento. Nós, a tripulação do VICTOR, estávamos em alto mar e eu devidamente dentro de roupas impermeáveis.

Concluindo-se, nós velejadores não podemos subestimar o frio. Devemos evitar, sempre que possível, exposições prolongadas e usar roupas adequadas. Em casos de suspeita de hipotermia, o paciente deve ser rapidamente reaquecido com roupas secas e cobertores. Nos casos mais graves, deve ser levado a um hospital.

[Popa] A família de Claudia Barth tem tradição marinheira. Veleiros do Sul, Porto Alegre.


Capitão Am Claudia Barth, no Veleiros da Ilha, Florianópolis

 


Comandante André Barth na travessia Rio Grande - Florianópolis, costa do Rio Grande do Sul:
"
Impressionante a calma do Comandante André"

 


Ponte Hercílio Luz - cartão postal de Florianópolis


Comentários recebidos

19 Mai 05 A.J. Machado Tobruk CDJ
Muito interessante e elucidativo.

21 Mai 05 Eduardo Hofmeister Ferrugem VDS
Cláudia,
Parabéns pela simplicidade com que relataste tão grande experiência.
Sobre a calma do Comandante, posso dizer que é mal da família. O Seu Egon, carinhosamente chamado de Chico pela tripulação, era o mais calmo a bordo e nunca ouvi ele levantar a voz para dar alguma ordem. Assim muitos aprenderam a velejar.
Um abraço
Ferrugem

22 Mai 05 Victor Scur Barth
Aee claudiaaa! Essa viajem foi mto boa msm, mas esta foi a parte mais apavorante do passeio, mais ate que a tempestade.Eu tbm nao sai inteiro desse passeio, com o meu corte no supercílio.
Abraçao
Victor Scur Barth

23 Mai 05 Jeferson Scholze
Fui proprietário de um Bruma 19 (SIBA), que afundou na marina do Alemão Arno (Ipanema). Isso ocorreu a uns 10 anos atrás.
No dia em que o barco virou, fui no local e tentei inutilmente desvirá-lo. Estava ancorado quando virou, sem nenhum tripulante.
Era inverno e batia um vento minuano muito forte.
Entrei na água, somente de calção e não fiquei mais de 10 minutos. O Arno entrou com roupa de neoprene.
Na ocasião, o Arno gritava para eu sair da água e por sorte, haviamos amarrado uma corda da praia até o barco.
Com o auxílio desta corda, consegui voltar. Entrei na casa do alemão e não conseguia falar, não controlava mais a respiração e estava com os músculos todos rígidos. Meu corpo pulava sem eu ter o controle.....
O Arno me ajudou a secar o corpo, porque eu não conseguia, me enrolou em um cobertor e alguém me deu um copão de café preto quente bem doce....
Aos poucos a respiração voltou ao normal, coloquei minha roupa e voltei para o serviço.
Depois de alguns anos, conversando com um amigo médico, fui informado que havia passado por uma situação de hipotermia.
O assunto é sério e é muito mais fácil ter uma hipotermia do que imaginamos.
Teus relatos me fizeram lembrar o que ocorreu comigo.
Abraços a todos tripulantes,
Jeferson Scholze

22 Jun 05 André Coelho VDS
Num relato simples e claro, Cláudia nos mostra que mesmo estando preparados técnicamente podemos, por excesso de confiança, prejudicar uma viagem e principalmente a saúde. Todo e qualquer cuidado quando se sai a navegar são bem vindos, pois o resgate por mais rápido que possa ser, nestas circunstâncias (no meio da lagoa ou mar), poderá chegar tarde demais. Parabéns Dra Cláudia, continue nos brindando com teus relatos, navegando agora além do barco, nas letras.
André Coelho VDS


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