Maragato
Encalhe em Mostardas
Carlos Altmayer Gonçalves Manotaço

11 Jun 2005
O litoral gaúcho, no trecho entre Mostardas e Chuí, é famoso por ser palco de encalhes de embarcações, desde que se tem registro destes acidentes. Nos últimos anos estão diminuindo os casos, fruto do GPS talvez. O fato é que até então, não havia caso de um veleiro gaúcho ter sofrido este revés. Mas sempre há uma primeira vez.
O veleiro “Maragato” navegava de Rio Grande (RS) para Florianópolis (SC), com vento SW, na altura de Mostardas.

Tripulação: Mauro Penter, Fernando Marins, Flávio Porto e Ralph Hennig.

Pane no leme e anjo da guarda
Zarparam de Rio Grande na madrugada da sexta-feira 21 de outubro de 1.998. (Dizem os supersticiosos que não se inicia viagem de barco às sextas-feiras). Pouco antes da meia-noite quebrou o eixo do leme, que não perdeu-se por ter ficado preso pelo cabo da bolina. A tentativa de fazer um leme de fortuna, com o pau de spi, falhou, quando este se quebrou. Tentaram contato por rádio VHF, que foi respondido pelo navio mercante “Anangel Sky”. Este fez contato com a marinha em Rio Grande, via rádio SSB. Ficou acertado que o navio patrulha “GURUPÁ” viria socorrer o “Maragato”.

A pedido da marinha, o "Anangel Sky" ficaria circulando o "Maragato" até a chegada do "Gurupá" à área. Isto se deu no final do sábado, quando o "AnangelSky" foi liberado, não sem antes ter sido devidamente agradecido por sua solicitude, pela tripulação do "Maragato". Seu nome não poderia ser mais apropriado: "Anangel Sky"; foi um verdadeiro anjo da guarda.

Reboque deixa veleiro à deriva
A condição exigida pela marinha era que a tripulação fosse no navio, ficando o barco a reboque, sem atendimento. O que era de se esperar aconteceu. Perto da uma hora da manhã de domingo, partiu-se o cabo de reboque, ficando o barco à deriva.

Mobilização dos amigos
Feitos os contatos devidos, na manhã de domingo, após votarmos para governador (ganhou Olívio Dutra, perdeu Antônio Britto), zarpamos para o litoral de Mostardas com duas pick-up 4x4. Nosso amigo Heloiz, morador de Mostardas, São Simão, foi cedo para a praia, avisar os pescadores que o barco era dele, para evitar o saque (junto com ele estava Beto Frischmann - VADIO). Um avião, com Leo Penter e José Carlos Ryzewski zarpou do aeroclube de Belém Novo. Corremos a praia desde o farol da Solidão até o farol de Mostardas sem nada achar.

Surpresa
Era meio-dia, quando chegamos na cidade de Mostardas.
Conseguimos um contato com a tripulação, que já estava em Rio Grande. O avião havia localizado o Maragato, a reboque do pesqueiro Itaú Costa, rumo NE.

Todos retornaram a Porto Alegre na tarde de domingo. Feito contato com a sede da companhia pesqueira, ficou combinado entregarem o barco em Imbituba, no final do dia seguinte (segunda-feira). Pela manhã, prepararam-se para ir ao encontro do barco, após o almoço.

Nova surpresa
Eram 13 horas quando Heloiz ligou-me para avisar que o Maragato havia dado à praia, cerca de 10 Km ao NE da praia de São Simão. Incrédulo, liguei para a turma que ainda não havia saído rumo a Imbituba.

Carteira intacta
Mudamos os planos. Encontramo-nos no VDS, com as duas pick-up e farto material de salvatagem, rumando para Mostardas, a equipe de terra: Mauro Penter, Alexandre Rimoli, José Paulo Ilha, Ralph Hennig e Carlos Altmayer Gonçalves.
Chegamos no local perto das 17 horas, encontrando Heloiz de guarda no cockpit. O barco fora encontrado pelo pescador "Batatinha", que deixando um filho de guarda, fora telefonar avisando do achado.
Após toda esta peripécia, a carteira do Flávio, que ficara sobre a mesa de navegação, estava lá intacta, com todos os pertences e valores.

Pickups, trator, guincho, Munck, caminhão
Iniciamos o desmonte do material de convés, para aliviar o barco. Ele estava na "rampa" da praia, de popa, permitindo que se embarcasse pela popa, sem molhar os pés. A partir da manhã seguinte, iniciamos a tarefa de arrastar o barco para cima da praia, tracionando-o com as catracas, camionetes e um trator cedido pela Estância Juazeiro, do Heloiz. Levamos dois dias para conseguir por a quilha em seco, numa posição que permitiu colocar tábuas e rolos sob a quilha. Era muito difícil trabalhar dentro d'água, o movimento das ondas retirava tudo do lugar.
Depois disso, em uma hora levamos o barco até as dunas. Neste ínterim, Mauro retornou a P. Alegre para providenciar o transporte, que foi coordenado pela "ShipSalvage". Um caminhão guincho para içar o barco, um "munck" para remover o mastro e a carreta do CDJ com o berço do Refúgio, irmão gêmeo do Maragato, seria usada no transporte do barco.

Envelhecimento precoce
Operação concluída sexta-feira ao entardecer, quando zarpamos rumo ao Posto São Simão, do Sr. Lúcio, passando pela beira da praia e Lagoa de São Simão. Lá chegando, arrumamos melhor as tralhas e despachamos Maragato para o VDS, aonde chegou na madrugada do sábado. Nós fomos comer um assado na Estância Juazeiro.

O leme quebrou por defeito no material do eixo, que tinha um tubo fundido. Este quebrou-se como um pára-brisa de vidro temperado. Aparentemente, um envelhecimento precoce.

Comentários:
Os danos que o barco sofreu, foram resultantes das duas tentativas de reboque. O encalhe e posterior remoção do barco em nada danificaram o Maragato.
Nesta época não havia antena de celular em Mostardas, porém, do avião conseguiam falar com Rio Grande e P.Alegre, devido à altitude.

Porto Alegre, 9 de junho de 2.005
Carlos Altmayer Gonçalves

Em tempo: O comandante do Gurupá (velocidade mínima 8 nós) declarou que a missão era salvar as vidas e que a tentativa de resgatar o veleiro após ter rebentado o cabo seria arriscada.
O pesqueiro enfrentava forte vento Nordeste com o Maragato a reboque, o que lhe impedia de avançar razoavelmente. Assim resolveram deixá-lo novamente à deriva.
Uma alça na roda de proa para amarrar o cabo de reboque certamente teria evitado seu rompimento.


O Maragato é um 38', projeto German Frers e construção Barcosul (Plínio Froener).
Colaborou na publicação deste artigo o Cmte Roberto Gruner Pretexto CDJ