A Lenda do Pianista do Mar
Intensidade dramática e inusitado lirismo
Maria Helena H. Marques

20 Dez 2008
A
história é de 1900. Um menino nascido e criado num navio, com um talento para a música, fora do comum ...
Depois do enorme êxito internacional de Cinema Paradiso, o director Giuseppe Tornatore, sofreu alguma quebra. Mas volta a rejuvenescer com A Lenda do Pianista do Mar, uma excelente adaptação do monólogo teatral Novecentos, de Alessandro Barico.

Narrada em 1946 por um trompetista de jazz aposentado, e ambientada na primeira metade do século, descreve o drama de um homem que passou toda a sua vida no interior do transatlântico onde nasceu. Tinha sido abandonado pela mãe e adoptado pelo maquinista do navio, que lhe pôs o nome de Mil e Novecentos (ano do nascimento); ali se converteu em um mítico virtuoso do piano, cujas notas, improvisadas e esquivas, retratavam o mundo que o rodeava e, ao mesmo tempo, interpretavam o seu universo interior. Procurando descobrir o que há do lado de fora do navio, sente um forte desejo de desembarcar em terra firme. Mas algo bem dentro do seu coração insiste-lhe em que não deve abandonar a sua hermética “jaula de ouro”.

Tornatore definiu o seu filme como uma “ fábula universal construída em torno de uma metáfora muito moderna sobre a condição humana”. E, fiel a este carácter de alegoria, permeia todo o seu “musical “ com muita poesia e sensibilidade, algumas vezes com toques surreais, ao estilo dos empregados por Fellini em “E la nave va”. Entre todos os parâmetros estéticos destacam-se as excelentes interpretações, sobretudo a de Tim Roth, a esplêndida fotografia e a trilha sonora de Ennio Morricone vencedora do Globo de ouro de 1999.

Essa radical opção romântica pode ser um pouco “doce” para alguns, mas sem dúvida propicia numerosas cenas de grande intensidade dramática e inusitado lirismo, o que resulta sempre numa elegância formal de extrema profundidade antropológica e um sentido quase operístico da clássica tragédia à volta da suposta solidão do artista.
Por mais incómodo que seja o fatalismo do desenlace final, é totalmente coerente com a auto - destrutiva e obsessiva sensibilidade do protagonista, que Tornatore mostra como tal. Desta perspectiva, o filme testemunha a perplexidade do homem moderno, incapaz de satisfazer o seu inato desejo de infinito por negar-se a descer do “barco” dos seus próprios desejos, levados daqui para ali, sem porto nem rumo, e desvirtuados por uma “racionalidade desmedida”.

O dilema de Mil e Novecentos de deixar o barco ou não, permite momentos de puro lirismo e reflexão, como na cena em que, sozinho, pergunta ao mar e a si mesmo por que não deixar o barco, e chegando à conclusão de que as pessoas da terra estão sempre insatisfeitas e a procurar os porquês, então prefere não arriscar. São instantes dramáticos que adquirem um sentido antropológico, pois reflecte sobre o dilema universal entre a imanência e transcendência que atiça todos os homens.

Definitivamente, é um filme que se mantém durante todo o tempo em grande estilo e profundidade...
Pelo menos, existem três cenas que vão ficar para a história, cenas antológicas e líricas, certamente maravilhosas: a cena em que Mil e Novecentos toca piano, no meio de uma tempestade, com o piano deslizando por todo o navio; no duelo entre Mil e Novecentos e Jelly Roll Morton (Clarence Williams III) colocado logo abaixo; e quando Mil e Novecentos vê pela primeira vez a garota nunca identificada, quando está a gravar o seu primeiro vinil.
Adaptação
Maria Helena H. Marques
Professora do Ensino Secundário
Viseu, Portugal

"A Lenda do Pianista do Mar", 1998, drama, 123min, 20th Century Fox, Warner Bros.

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