
22 Dez 2009 O fato pode parecer à primeira vista uma espécie de reação do gaúcho que confia no cavalo como meio de transporte diante das melhores atrapalhações do progresso. Esta é uma conjetura. A realidade é que o avião foi laçado, preso e bem fortemente por laço de 13 braças e quatro tentos. O vaqueiro Euclides Guterres, bonitão e frajola, nascido no alto da Serra, mas que veio para a coxilha, bem cedo, até gosta de aviação e coisas modernas. É o tipo característico do peão de estância dos dias que correm, sem literatura Pois foi Euclides Guterres, de 24 anos, solteiro, vivaz, e fazedor de proezas e espanholadas como mais ou menos são todos os peões das estâncias do Rio Grande, o homem que laçou o avião pelo nariz. Rebolou o laço e apanhou o Paulistinha num golpe certeiro. O aparelho virou bicho caborteiro, deu mais uns pulos e as rapidíssimas rotações da hélice o salvaram, cortando o laço de couro cru: o avião ganhou altura, fugiu, perdeu-se no horizonte que se confunde com a planura do descampado, carregando na fuselagem quatro braças do laço do vaqueiro. Um verdadeiro Rei do Laço
Logo avistou a bela propriedade, a Casa Grande e todo o seu conjunto, os largos currais, a figueira velha, o mangueirão. E iniciou uma série de vôos rasantes nos arredores. O descampado era um vivo convite à brincadeira. É possível que, em dias passados, tivesse até perseguido lebre no pequeno avião, duma mobilidade admirável. Porque, então, hoje, que a tarde está assim tão clara e tudo tão limpo na frente, não voar rasteirinho à grama fofa? Euclides Guterres (foto), cá debaixo, olhava com olho alegre a brincadeira do jovem piloto. Foi quando lhe nasceu a idéia incrível. Seria possível? Sim, claro, era possível. Tudo dependia de ter os pulsos no lugar. Então esperou. Fazia mais de meia hora que estava ali na coxilha tratando da novilha gorda, atacada de bicheira. E aquilo era monótono. Apanhou o laço, e sentiu que a hora estava para chegar. O Paulistinha roncou em cima de sua cabeça mais uma vez. Foi a conta. Tiro dado, bugio deitado, como se diz no sul. O avião fora laçado. Acertara o alvo!
O peão Euclides Guterres, para não ser carregado pelo avião, largou o laço. O seu temor fora em vão: a hélice, de golpe, já havia partido em duas as 13 braças de couro cru trançado. No interior do avião, o drama era bem outro. O jovem piloto tinha na frente dos olhos um pedaço de laço e concluiu que acontecera com ele uma coisa incrível. Virou o nariz do aparelho e voou em direção da Base Aérea de Camobi, fazendo uma aterrissagem feliz. Vistoriando o aparelho no solo, verificou que a hélice estava partida! Tudo poderia, afinal de contas, ter lhe custado a sua vida. 1. Claudio Candiota, atualmente com 82 anos, era jornalista d'A Razão, de Santa Maria, e correspondente d'O Cruzeiro, do Rio de Janeiro. 2. A hélice do Paulistinha está exposta na Ferragem da família Noal, na rua Dr. Bozano, em Santa Maria. Irineu Noal, 78 anos, é comerciário aposentado. Tinha 20 anos na ocasião (20 Jan 1952, um domingo, em torno das 15h) e havia sido brevetado em novembro de 1951. Sua licença teria sido caçada logo após o episódio.
O piloto estaria levando carta à ex-namorada, filha do fazendeiro, em Arroio do Só, como indica a matéria da Time (em inglês, abaixo). Quando a diretoria do aeroclube percebeu o pedaço do laço enrolado na hélice, o piloto foi obrigado a contar do que escapara. Diante do fato, os diretores do aeroclube se reuniram e decidiram cassar a licença do piloto Noal. Ele teve ainda que pagar uma multa pelo ato, considerado uma transgressão. Em 1999, quando com 68 anos foi perguntado sobre o fato, ele não se sentiu à vontade para falar sobre a façanha e disse:
-Foi uma brincadeira de guri -resumiu-se a contar.
Mesmo arredio, o piloto admitiu o perigo da manobra e desdenhou a habilidade do peão.
-Aquele não laçava nem vaca. Foi uma sorte muito grande -afirma Noal, só não conseguiu lembrar o dia exato do episódio.
A façanha não tornou famoso apenas o peão. A ousadia do piloto rendeu sucesso entre as garotas da época. Noal recebeu várias correspondências que elogiavam sua coragem. Mesmo incomodado em falar sobre o assunto, o piloto fez questão de provar a veracidade da história. Nos fundos da ferragem administrada pelos filhos, pendurada no canto de uma parede estava a hélice do Paulistinha. Enrolado à hélice 3. Euclides Guterres tinha 24 anos na época, e morreu de leucemia em 1981. Segundo Maria Cezar, Maria do Carmo Marshal, primeira filha de Euclides e sua colega na Coordenadoria Regional de Educação de Santa Maria, tinha apenas dois anos na época. Lembra-se bem das vezes em que seu pai gabava-se da laçada histórica. Como quem justificava um erro, Guterres insistia em dizer que avisou o piloto da sua intenção de laçar o avião. Só depois de repetidas tentativas, o peão conseguiu cumprir a promessa.-Eu ainda vou te derrubar desse bicho- é o que dizia ao aviador. ___________________________ Versão da notícia publicada na Time Magazine, de 11 de Fevereiro de 1952
|
22 Dez 2009 Fred Roth Danilo, temos um caso semelhante bem perto de nós. O pai do nosso amigo e sócio do VDS Henrique Kuhl, há muitos anos, foi literalmente fisgado enquanto voava baixo em um teco-teco sobre a plataforma de pesca de Atlantida, o que lhe rendeu ferimentos bem sérios. Pede para ele te contar o ocorrido. Abraço, Fred |