Direto para Paraty
Metralhadoras em Angra, e o encanto de Paraty
Claudia Barth

Um ano após a viagem ao Uruguai, a bordo do veleiro Victor, um Fast 345, resolvemos inverter a nossa proa. Em janeiro de 2007, nosso rumo foi Angra dos Reis e, segundo diz a lenda, suas 365 ilhas. É nelas e no mar de cor verde esmeralda que está a beleza de Angra, um lugar para ser visitado de barco.

Cheios de expectativas para conhecer o “Caribe brasileiro”, chegamos após 14 dias de navegada, com vento contra (nordeste) na maior parte do tempo. Como a intensidade do vento não era forte, entre 10 e 20 nós, conseguimos desenvolver uma velocidade média de 6 nós com vela grande e motor. Foi a primeira vez, desde que compramos o Victor, que usamos a “máquina” por tanto tempo, para desgosto do Comandante André. Desde Porto Alegre foram mais de 900 milhas navegadas, com paradas em Rio Grande, Florianópolis, Porto Belo, São Francisco do Sul e Ilhabela.

Depois de uma travessia dessas, longa e cansativa, exposta aos caprichos da natureza, com noites mal dormidas e água salgada por tudo, o que mais a gente quer é o conforto de uma marina com trapiche, água, luz e, principalmente, um bom banho de chuveiro. Ser bem recebidos nas marinas e clubes é outra situação muito bem-vinda para quem chega de tão longe.
Em Angra, não foi exatamente isso que encontramos, talvez por ser nossa primeira vez e não sabermos os lugares certos para ir.

Na primeira marina que paramos, fomos recebidos por guardas armados com metralhadoras. O tempo máximo que nos foi permitido abastecer o barco com água e lavar o convés foram 40 minutos. Passamos a noite numa poita e, à nossa volta, só víamos lanchas com mais de 50 pés. Quase perdemos o banho de chuveiro, pois os vestiários fechavam pontualmente às 21 horas.
Banho tomado, sensação de alívio, limpinhos e cheirosos, surpresa! Começou a chover. Tomamos outro banho para chegar até o barco de botinho.

Nosso conselho para quem pretende ir algum dia a Angra dos Reis de barco: não vá sem um bote inflável. Sem ele, a gente fica “ilhado”, e tudo é mais difícil, como comprar mantimentos, tomar banho de chuveiro, conhecer os lugares em terra, e por aí vai. O botinho dá liberdade, não precisa ficar na dependência dos barcos de apoio das marinas.

Nas duas semanas que passamos em Angra, ficamos a maior parte do tempo na Ilha Grande (na foto acima, a Lagoa Azul, na Ilha Grande). Suas várias enseadas são excelentes abrigos. Fundeamos no Saco do Céu e no Sítio Forte, locais que tinham uma grande vantagem: uma poita com mangueira com água de fonte. Foi uma grande descoberta. Evitou que saíssemos da ilha para abastecer o barco com água.

Na Enseada do Abraão, há um vilarejo de mesmo nome que é considerado a “capital” da Ilha Grande. Lá é possível comprar alimentos perecíveis. Aproveitamos para descartar o nosso lixo, que é outro problema que encontramos em Angra. Muitos lugares não aceitam lixo, nem pagando. Talvez este seja um dos motivos por que encontramos tanto lixo dentro d’água.

Na cidade de Angra dos Reis, há um lugar muito bom para fazer compras, o Pirata’s Mall. É uma marina dentro de um shopping center, ou vice-versa. O super mercado é excelente, com produtos de ótima qualidade. É possível atracar por 3 horas sem pagar nada. Se passar disso, é cobrada uma taxa de R$ 50,00 a hora, e o controle do horário é rigoroso. Neste local, é proibido descartar lixo.

Lugares imperdíveis, que devem ser visitados, são as Ilhas Botinas (foto acima), cartão postal de Angra, e a Lagoa Azul (foto ao lado), na Ilha Grande. São realmente lindos, mas depois de uma certa hora, ficam lotados de lanchas e escunas cheias de gente. Uma lancha bateu no nosso barco, e uma escuna quase atropelou meu sobrinho Vitinho. O segredo é chegar cedo e evitar finais de semana.

A Praia do Dentista (foto ao lado), na Ilha da Jipóia, também deve ser visitada. É o lugar mais badalado de Angra, onde todo mundo vai para ver e ser visto. É uma praia muito bonita, com areia bem branca, mas lotada. Nós fomos lá, demos uma volta, e fugimos para a praia ao lado.

Outros problemas que enfrentamos em Angra foram o calor excessivo, a grande quantidade de mosquitos, e as chuvas diárias. O calor às vezes era insuportável, dentro e fora do barco.

A beleza de Angra compensa todos esses “sacrifícios”, mas não por muito tempo. Decidimos antecipar a nossa volta, mas antes resolvemos conhecer Paraty. Foi, então, que a nossa vida melhorou, e muito.
Chegamos num final de tarde com chuva. Fomos direto à Marina do Engenho, do Amyr Klink. Não conseguimos lugar no trapiche, mas pudemos ficar fundeados e usar a estrutura da marina por uma diária de R$10,00 por pessoa.

A maioria das embarcações atracadas lá eram veleiros, e logo nos sentimos à vontade. Foi muito bom encontrar um lugar com infra-estrutura para velejadores. Graças às máquinas de lavar roupas, conseguimos lavar nossas roupas de cama.

Fomos muito bem recebidos e logo fizemos amigos. Encontramos uma turma de gaúchos: o veleiro Tandi, do Comandante Adroaldo, e seus amigos do catamarã Charlie Whiskey. Também apareceu por lá o veleiro Molokai, do Comandante Newton Aerts.

Quando atracamos o barco no trapiche para abastecer com água, o Luiz, gerente da marina, deixou que ficássemos lá mesmo. Para nós, foi uma festa. Finalmente conseguimos ficar bem acomodados e cercados de amigos. Depois disso, não deu mais vontade de ir embora.

Quando saímos para pescar com uns amigos e pernoitar na Ilha da Cotia, uma lancha de 50 pés passou por nós em alta velocidade. O que aconteceu foi desanimador. Uma onda enorme lavou o convés, entrando água pelas gaiútas, que estavam abertas, e molhando tudo com água salgada: colchonetes, roupas de cama recém lavadas, edredons, sacolas com roupas dentro, e muito mais. Foi um mutirão a bordo para limpar tudo, um trabalho danado. Depois dessa, só voltando para a marina para recuperar o bom humor. Quando retornamos, o Luiz prontamente conseguiu prá gente um lugar no trapiche (foto acima). Foi um alívio.

Claro que esta viagem não foram só dificuldades e aborrecimentos. O lugar é lindo e vale a pena conhecer. A beleza natural é fantástica. As montanhas caindo direto no mar, a transparência e a cor verde esmeralda da água, a quantidade de ilhas, cada uma de um jeito diferente e com seu encanto, fazem de Angra um lugar indescritível.

Na travessia, também conhecemos lugares fantásticos como São Francisco do Sul e Ilhabela, que merecem ser visitados com mais calma. Isso sem falar em Porto Belo e Florianópolis, que já conhecíamos de uma travessia anterior. Lugares igualmente belos, com a vantagem de estarem “aqui pertinho”. Já Rio Grande é parada “obrigatória”, um lugar onde a gente se sente em casa, conhece muita gente legal, e faz muitos amigos.

Enfim, valeu a pena. Talvez o verão não seja a melhor época do ano para visitar Angra dos Reis. Da próxima vez, vamos reservar com antecedência um lugar na Marina do Engenho (foto acima), e ir direto para lá. Além do conforto da marina, Paraty é um encanto, uma cidadezinha carregada de história, que conquista o coração da gente. Sem dúvida, já decidimos. Vamos direto para Paraty.

 

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