“Guanabaras” em regata
na Lagoa dos Patos

Pituco, Revista Yachting Brasileiro nº8 (Junho, 1945)
Transcrição Comandante Carlos Altmayer Gonçalves Manotaço

Álvaro Furtado Bento, presidente do Conselho Deliberativo dos Veleiros do Sul, e entusiasta da vela em cruzeiro, instituíra um ano atrás um prêmio valioso para uma regata de barcos de cruzeiro, estabelecendo que o percurso deveria estender-se à Lagoa dos Patos. Surgindo nesta temporada sete barcos da classe “Guanabara” em Porto Alegre, todas as dificuldades que antes se opuseram à realização da regata num prélio de igual para igual foram removidas, e, desta forma, os Veleiros do Sul marcaram a regata para os dias 21 e 22 de abril p.p. aproveitando o feriado de Tiradentes, que por feliz coincidência caía num sábado.

De comum acordo com o ofertante da “Taça Brisa” a direção técnica dos Veleiros estabelecera o percurso desde o porto da sociedade, saindo Lagoa a dentro em Itapoã, contornando o farolete da ilha do Barba Negra, rumando então para o do Banco das Desertas, voltando a seguir para o porto do Veleiros do Sul. Estabeleceu-se mais que a tripulação deveria ser de quatro homens, e que só seria permitido o uso do velame básico, isto é, o grande e a bujarrona, pois alguns barcos não possuíam ainda velas auxiliares como genoa ou spinnacker, de vez que recente era a sua construção.

Calculando com os ventos geralmente médios desta época do ano, a partida, para aproveitar-se o tempo disponível o mais possível,fora marcada para às 21 horas de sexta-feira, 20 de abril (1945), quando se apresentaram à Comissão de Regata os seguintes cinco Guanabaras e tripulações, todos pertencentes à flotilha dos Veleiros do Sul:
“Guará” – Telmo e Jorge Bertschinger, Gerson e Serrano.
“Alcatraz” – Jorge Gros, Sonnenstrahl, Thoeming e Stefan.
“Umuarama” – Erwin Bier, Fredi e Rolf Bercht, Lemcke.
“Erica” – Zeller, Endter, Bento e Hackner.
“Atlantis” – Sokolowski, Luetz, Biekark e Bromberg.

Despertando a regata desusado interesse, não só nas rodas desportivas como também sociais, apreciável número de pessoas compareceu à partida, dando um último estímulo aos tripulantes dos barcos em concorrência. Pontualmente se deu a partida com vento muito leve de NE. No percurso até a volta da usina, portanto nas 3 milhas iniciais da prova, que só foram cobertas em tantas iguais horas, “Umuarama” e “Alcatraz” avantajaram-se ligeiramente de “Atlantis”, este por sua vez sobre “Erica” e “Guará”. Com a máxima atenção ao vento que rondava pelo norte para o quadrante de oeste os comandantes dos iates controlavam-se mutuamente, procurando evitar por todos os meios que um escapasse do grupo. De madrugada espesso nevoeiro deu uma sensação especial à prova, pois clareava o dia sem que os concorrentes se pudessem localizar. Quando pelas 7 horas da manhã um oeste médio limpara a atmosfera, “Umuarama” e “Alcatraz” ponteavam com regular diferença sobre “Atlantis”, a que seguiam “Erica” e algo distanciado “Guará”. Os dois cruzeiros “Pingüim” e “Argus”, que acompanhavam a regata, formavam as pontas, como se quisessem exercer um controle absoluto sobre a prova.

Voltando o vento a rondar para o Norte, a regata prosseguia rumo ao farolete da Ilha do Junco com todos os concorrentes armando os panos em asa de pombo. Como sempre se dá em percursos de vento em popa os barcos de trás fechavam sobre os ponteiros, separando no contorno do farolete do Junco escassos 4 minutos os quatro barcos “Umuarama”, “Alcatraz”, “Atlantis” e “Erica”; distanciado seguia “Guará”. Com vento gradualmente diminuindo navegava-se Lagoa a dentro, passando-se o farol de Itapoan a 30 milhas da partida, após 12 horas de navegação.

A Lagoa, muito calma em um dia de sol, daqueles brilhantes de outono, com águas límpidas recebeu os participantes à prova com efetiva consideração. Ao largo e em popa rumava-se para o Farolete do Banco, que se estende 4 milhas para o sul da ilha do Barba Negra, que foi contornada dentro de 2 e meio minutos pelos quatro vanguardeiros, seguindo “Guará” após 25 minutos, tendo este fechado consideravelmente sobre o lote. Com um leste de leve tendência para sul iniciou-se a orça, que, supunha-se, iria decidir a prova. Mas já breve notara-se que o que uns conseguiam mais de barlavento outros ganhavam em velocidade. “Guará”, especulando com um salto do vento para nordeste, virara de bordo sobre o “Barba Negra”, procurando os demais primeiros ganhar para leste, para depois rumar para nordeste. Quando escurecia, “Umuarama” ponteava com regular vantagem a barlavento do “Alcatraz” e “Erica”; navegando umas 2 milhas à popa, mas com mais barlavento, navegava “Atlantis”; “Guará” saia do taboleiro de Itapoan seguramente 5 milhas a sotavento. No que escureceu os quatro ponteiros localizaram o Farolete das Desertas, bordejando agora contra um leste fresco e firme. “Argus”, que ao sair de Itapoan rumara diretamente para as Desertas, às 21 horas em uma belíssima noite de luar, ancorado a pouca distância do marco, então experimentou a sensação de observar três barcos, que contornavam ao mesmo tempo o farolete, vindo todos de direções diversas, verificando-se mais o quase absurdo, que após 24 horas de navegação e cerca de 60 milhas de percurso, não contando os bordejos, um barco ainda chegou a pedir lazeira a outro para contornar o farolete.

Exatamente uma hora após “Atlantis” contornava o farolete, rumando de volta para Itapoan, com vento forte e bastante mar ao largo. Os 3 ponteiros que pouco após o contorno do marco das Desertas se perderam de vista, entraram no Itapoan após 3 horas de percurso na seguinte ordem: “Erica”, “Alcatraz” e “Umuarama”, encaixando-se entre eles o “Guará”, que desistira não conseguindo localizar o farolete das Desertas. “Atlantis” voltou ao Guaíba meia hora após os ponteiros, descontando meia hora no trajeto de 15 milhas das Desertas ao Itapoan. Mal estavam os concorrentes à prova rumando para a Ilha Francisco Manuel quando o vento amainou por completo, voltando pouco após, mas muito leve do noroeste, portanto de proa. Foi aí que a regata se decidiu. “Umuarama” conseguiu livrar-se da observação rigorosa de “Alcatraz” e ganhou distância rumo à chegada, que lhe garantiu a vitória.

Quando clareou o dia, estava “Umuarama” na altura de Belém Novo. “Alcatraz” nas imediações da Ponta do Arado, “Erica” ao largo do Francisco Manuel, “Atlantis” no canal do Salgado, entre estes “Guará”, do qual não se sabia ainda que tinha abandonado a prova. Contra o noroeste fraco, que com as horas acalmava mais e mais, seguiam os disputantes bordejando continuamente, procurando tirar o proveito possível do vento, das 11 às 15 horas da tarde então fraquíssimo. “Atlantis” passara por “Guará” e vinha fechando bem sobre os ponteiros, quando pelas 16 horas e 30 minutos o vento girou para sul, refrescando um tanto. Neste ponto “Umuarama” estava bem próximo à ponta da ilha da Pintada, “Alcatraz” na margem oposta na Ponta do Melo, “Erica” e”Atlantis” no meio da bacia do Cristal uns 1.000 metros atrás, que foram rapidamente descontados, contornando os quatro a bóia da Usina na entrada do porto com uma diferença de nem 4 minutos.

Infelizmente o vento dentro do porto não se manteve, seguindo os quatro concorrentes em um final sensacional com os panos bem caçados à meta final, que “Umuarama” transpôs com 300 metros de luz sobre “Erica” e “Alcatraz”, que entravam nesta ordem bordo a bordo em autêntico “luffing-match”, seguindo outros 200 metros atrás “Atlantis”.

O final da prova após 45 horas de percurso bem demonstra o quanto foi disputada a regata, como estavam equilibradas as forças entre os concorrentes seja em material seja em tripulações. Transferindo a regata na próxima temporada para os meses de fevereiro ou março os Veleiros do Sul garantirão à 2ª disputa da Taça Brisa condições mais favoráveis de vento, sendo de presumir que o percurso de além de 100 milhas seja feito em cerca de 30 horas. O traçado do percurso parece ser perfeito para uma regata desta natureza, pois a localização do Farolete das Desertas vindo do oeste exige navegação exata uma vez que não se queira perder terreno em bordos excessivos. Certo é que os que correram a regata este ano, dificilmente no ano que vem deixarão de participar novamente da 2ª disputa da Taça Brisa.

Não se pode deixar de transcrever os tempos que demonstram uma diferença de 9 minutos do primeiro ao último colocado, e do 2º para o 3º, 5 segundos (!) , o que representa um record de regularidade e de qualidade do monotipo escolhido – a classe Guanabara.
“Umuarama” tempo 44 h 25 m 30 s
“Erica” tempo 44 h 29 m 30 s
“Alcatraz” tempo 44 h 29 m 35 s
“Atlantis” tempo 44 h 34 m 30 s
“Guará” desclassificado.

Transcrito por Carlos Altmayer Gonçalves – Julho – 2004.

________________________________________________________________________

[popa]: Aparentemente o percurso era o mesmo do atual Troféu Seival (Circuito Conesul), mas como o Veleiros do Sul situava-se mais ao norte, o percurso era maior: Humaitá, Itapuã, Barba Negra, Desertas, Itapuã e Humaitá.
Segundo o Comandante Manotaço, a Taça Brisa, que passou a chamar-se Copa Brisa, sofreu um revés importante. Manotaço, que tem trabalhado para resgatar a história da Vela no RGS, conta que:

Foram disputadas cerca de 4 edições, até que...
Entraram na Lagoa dos Patos com forte Nordeste, que fez sossobrar três barcos. Foram dar na costa da ilha do Barba Negra, aonde suas tripulações conseguiram colocá-los em condições de navegar novamente, retornando para Porto Alegre. Os que não afundaram, ajudaram os náufragos a recuperar seus barcos. Tudo isto ocorreu de madrugada. Não ficou registro escrito da epopéia, pelo menos que eu saiba.
Quem sabe se não descobrimos algum participante dessa aventura, para relatar os fatos como realmente ocorreram.
O que eu sei é conversa de varanda, que, muitas vezes perde ou altera os detalhes.

Sempre bons ventos,

Manotaço

 

 

Envie seus comentários ao popa.com.br:

Seu e-mail:



CLICK APENAS UMA VEZ