
“Guanabaras” em regata
na
Lagoa dos Patos
Pituco, Revista Yachting Brasileiro nº8 (Junho, 1945)
Transcrição Comandante Carlos Altmayer Gonçalves Manotaço
De comum acordo com o ofertante da “Taça Brisa” a direção técnica dos Veleiros estabelecera o percurso desde o porto da sociedade, saindo Lagoa a dentro em Itapoã, contornando o farolete da ilha do Barba Negra, rumando então para o do Banco das Desertas, voltando a seguir para o porto do Veleiros do Sul. Estabeleceu-se mais que a tripulação deveria ser de quatro homens, e que só seria permitido o uso do velame básico, isto é, o grande e a bujarrona, pois alguns barcos não possuíam ainda velas auxiliares como genoa ou spinnacker, de vez que recente era a sua construção. Calculando com os ventos geralmente médios desta época do ano, a partida, para aproveitar-se o tempo disponível o mais possível,fora marcada para às 21 horas de sexta-feira, 20 de abril (1945), quando se apresentaram à Comissão de Regata os seguintes cinco Guanabaras e tripulações, todos pertencentes à flotilha dos Veleiros do Sul: Despertando a regata desusado interesse, não só nas rodas desportivas como também sociais, apreciável número de pessoas compareceu à partida, dando um último estímulo aos tripulantes dos barcos em concorrência. Pontualmente se deu a partida com vento muito leve de NE. No percurso até a volta da usina, portanto nas 3 milhas iniciais da prova, que só foram cobertas em tantas iguais horas, “Umuarama” e “Alcatraz” avantajaram-se ligeiramente de “Atlantis”, este por sua vez sobre “Erica” e “Guará”. Com a máxima atenção ao vento que rondava pelo norte para o quadrante de oeste os comandantes dos iates controlavam-se mutuamente, procurando evitar por todos os meios que um escapasse do grupo. De madrugada espesso nevoeiro deu uma sensação especial à prova, pois clareava o dia sem que os concorrentes se pudessem localizar. Quando pelas 7 horas da manhã um oeste médio limpara a atmosfera, “Umuarama” e “Alcatraz” ponteavam com regular diferença sobre “Atlantis”, a que seguiam “Erica” e algo distanciado “Guará”. Os dois cruzeiros “Pingüim” e “Argus”, que acompanhavam a regata, formavam as pontas, como se quisessem exercer um controle absoluto sobre a prova. Voltando o vento a rondar para o Norte, a regata prosseguia rumo ao farolete da Ilha do Junco com todos os concorrentes armando os panos em asa de pombo. Como sempre se dá em percursos de vento em popa os barcos de trás fechavam sobre os ponteiros, separando no contorno do farolete do Junco escassos 4 minutos os quatro barcos “Umuarama”, “Alcatraz”, “Atlantis” e “Erica”; distanciado seguia “Guará”. Com vento gradualmente diminuindo navegava-se Lagoa a dentro, passando-se o farol de Itapoan a 30 milhas da partida, após 12 horas de navegação.
A Lagoa, muito calma em um dia de sol, daqueles brilhantes de outono, com águas límpidas recebeu os participantes à prova com efetiva consideração. Ao largo e em popa rumava-se para o Farolete do Banco, que se estende 4 milhas para o sul da ilha do Barba Negra, que foi contornada dentro de 2 e meio minutos pelos quatro vanguardeiros, seguindo “Guará” após 25 minutos, tendo este fechado consideravelmente sobre o lote. Com um leste de leve tendência para sul iniciou-se a orça, que, supunha-se, iria decidir a prova. Mas já breve notara-se que o que uns conseguiam mais de barlavento outros ganhavam em velocidade. “Guará”, especulando com um salto do vento para nordeste, virara de bordo sobre o “Barba Negra”, procurando os demais primeiros ganhar para leste, para depois rumar para nordeste. Quando escurecia, “Umuarama” ponteava com regular vantagem a barlavento do “Alcatraz” e “Erica”; navegando umas 2 milhas à popa, mas com mais barlavento, navegava “Atlantis”; “Guará” saia do taboleiro de Itapoan seguramente 5 milhas a sotavento. No que escureceu os quatro ponteiros localizaram o Farolete das Desertas, bordejando agora contra um leste fresco e firme. “Argus”, que ao sair de Itapoan rumara diretamente para as Desertas, às 21 horas em uma belíssima noite de luar, ancorado a pouca distância do marco, então experimentou a sensação de observar três barcos, que contornavam ao mesmo tempo o farolete, vindo todos de direções diversas, verificando-se mais o quase absurdo, que após 24 horas de navegação e cerca de 60 milhas de percurso, não contando os bordejos, um barco ainda chegou a pedir lazeira a outro para contornar o farolete. Exatamente uma hora após “Atlantis” contornava o farolete, rumando de volta para Itapoan, com vento forte e bastante mar ao largo. Os 3 ponteiros que pouco após o contorno do marco das Desertas se perderam de vista, entraram no Itapoan após 3 horas de percurso na seguinte ordem: “Erica”, “Alcatraz” e “Umuarama”, encaixando-se entre eles o “Guará”, que desistira não conseguindo localizar o farolete das Desertas. “Atlantis” voltou ao Guaíba meia hora após os ponteiros, descontando meia hora no trajeto de 15 milhas das Desertas ao Itapoan. Mal estavam os concorrentes à prova rumando para a Ilha Francisco Manuel quando o vento amainou por completo, voltando pouco após, mas muito leve do noroeste, portanto de proa. Foi aí que a regata se decidiu. “Umuarama” conseguiu livrar-se da observação rigorosa de “Alcatraz” e ganhou distância rumo à chegada, que lhe garantiu a vitória. Quando clareou o dia, estava “Umuarama” na altura de Belém Novo. “Alcatraz” nas imediações da Ponta do Arado, “Erica” ao largo do Francisco Manuel, “Atlantis” no canal do Salgado, entre estes “Guará”, do qual não se sabia ainda que tinha abandonado a prova. Contra o noroeste fraco, que com as horas acalmava mais e mais, seguiam os disputantes bordejando continuamente, procurando tirar o proveito possível do vento, das 11 às 15 horas da tarde então fraquíssimo. “Atlantis” passara por “Guará” e vinha fechando bem sobre os ponteiros, quando pelas 16 horas e 30 minutos o vento girou para sul, refrescando um tanto. Neste ponto “Umuarama” estava bem próximo à ponta da ilha da Pintada, “Alcatraz” na margem oposta na Ponta do Melo, “Erica” e”Atlantis” no meio da bacia do Cristal uns 1.000 metros atrás, que foram rapidamente descontados, contornando os quatro a bóia da Usina na entrada do porto com uma diferença de nem 4 minutos. Infelizmente o vento dentro do porto não se manteve, seguindo os quatro concorrentes em um final sensacional com os panos bem caçados à meta final, que “Umuarama” transpôs com 300 metros de luz sobre “Erica” e “Alcatraz”, que entravam nesta ordem bordo a bordo em autêntico “luffing-match”, seguindo outros 200 metros atrás “Atlantis”. Não se pode deixar de transcrever os tempos que demonstram uma diferença de 9 minutos do primeiro ao último colocado, e do 2º para o 3º, 5 segundos (!) , o que representa um record de regularidade e de qualidade do monotipo escolhido – a classe Guanabara. Transcrito por Carlos Altmayer Gonçalves – Julho – 2004. ________________________________________________________________________ [popa]: Aparentemente o percurso era o mesmo do atual Troféu Seival (Circuito Conesul), mas como o Veleiros do Sul situava-se mais ao norte, o percurso era maior: Humaitá, Itapuã, Barba Negra, Desertas, Itapuã e Humaitá. Foram disputadas cerca de 4 edições, até que... Sempre bons ventos, Manotaço |
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