Grupo dos Cruzeiristas
por Jorge Vidal

O "Grupo dos Cruzeiristas"

Foi criado em junho de 1956 no Clube Veleiros do Sul de Porto Alegre, por uma turma de 24 velejadores, que se reúnem em um jantar todas as primeiras quartas-feiras de cada mês - inicialmente eram as primeiras 2ª feiras - um grupo de antigos navegadores, denominados como "Grupo dos Cruzeiristas", para comentar as suas aventuras náuticas durante as diversas velejadas de seus integrantes.

Cada velejador tem então a oportunidade de contar as suas histórias ou fatos relevantes, durante o período, tais como, passeios pelo estuário do Guaíba, Lagoa dos Patos, oceano, viagens, enfim fatos curiosos todos ligados a velejadas e programação de regatas, especialmente as longas.
O grupo é comandado pelo "MÃE", seu presidente, ou chefe, se assim podemos chamá-lo, pronunciando-se, outrossim, levado pelo antigo sotaque da língua alemã, origem da maioria dos fundadores do clube de: "O MÃE".

Existe também a figura do "Ministro do Chopp", que é o responsável pela saudação aos presentes durante o jantar, de fatos relevantes, saudados obrigatoriamente pela bebida de um "Chopp" ou "Nicolashka", que é uma mistura de rum, vodka ou conhaque, limão e açúcar. Por qualquer acontecimento raro como, encalhar o barco, homem n'água, erro de navegação, infringir regras de regata, ou qualquer outra "besteira", paga Chopp... assim como comemorações tais como, aniversários ou outro fato marcante. O "Ministro" faz a saudação, com o "Tripicê Hurra"!!! E dê-lhe trago...

Para o velejador ser admitido no grupo, tem que ter navegado no mínimo, algumas diversas vezes na Lagoa ou no Mar e provar a sua condição marinheira e de companheiro, assim como, a lealdade às tradições veleiras. O ato do batismo anualmente é comandado pelo "MÃE" e acompanhado pelo Deus das coisas do mar "Neptuno", devidamente paramentado, com a coroa e empunhando o tridente, oportunidade essa em que o "neófito", passa por um teste de coragem, geralmente representado por comer um peixe cru, além de outras provas de sua fibra e desprendimento.

Os jantares programados são de responsabilidade de um dos seus membros, antecipadamente indicado pelo "MÃE" e aprovado pelos demais cruzeiristas na reunião anterior, que fica então responsável pela escolha do "prato" a ser servido, sua qualidade, quantidade etc...tudo tem que ser, pelo membro designado, de sua inteira responsabilidade. E dê-lhe Chopp e Nikolashka!

Com os tempos modernos e com a igualdade entre homens e mulheres, foram até "iniciados", ultimamente, alguns membros do sexo feminino e, outrossim, alguns "lancheiros", que devidamente comprovados como marinheiros e companheiros, tenham satisfeito as exigências dos verdadeiros integrantes do "Grupo de Cruzeiristas". Tudo bem! Tempos modernos...

Ser "Cruzeirista", no Veleiros do Sul é uma distinção que honra a qualquer tripulante ou comandante e que deve ser respeitada pelos mais jovens e servir de exemplo a ser seguido, dentro dos preceitos de marinharia e companheirismo, para galgar a este "grupo", tão unido e respeitoso nas tradições do nosso clube.

Grandes histórias de velejadas pelo estuário do Guaíba, Lagoa dos Patos, conhecida então com "Mar Doce" e ultimamente também navegadas a Sta. Catarina, Angra e até a Ilha de Fernando de Noronha, já foram contados nos jantares-reunião, assim como viagens pelos seus integrantes por este mundo a fora, inclusive travessias oceânicas por alguns de seus membros, com muito orgulho para nós. O horizonte dos "cruzeiristas" realmente foi muito ampliado!

Um clube de vela torna-se cada vez maior e mais forte, quando mantém viva as suas tradições marinheiras.


Jorge Vidal
Cruzeirista
Nov. 2003.


O cmte Jorge Vidal, ex-comodoro do Veleiros do Sul, é um velejador veterano.
A bordo de seu veleiro VIDA, Jorge viveu grandes momentos. Parte deles estão
relatados em "Conta todas, vovô!", obra comentada na seção Livros.