Meu amigão deixou de navegar
Um coração que arribava à todo leme pra cima da razão
Danilo Chagas Ribeiro

Ago 2004
O amigão que me trouxe para o esporte à vela, se foi. Perdi o grande parceiro com quem convivi por toda a vida.

Nos anos 60 ele me associou ao Veleiros do Sul e me matriculou num curso de vela. O barco-escola era da classe Jangadeiro, o Enige, como esse aí ao lado.

O Velho gostou muito deste iole de 18', de madeira escamada, de desenho alemão da década de 40, pensando nas águas baixas da Lagoa da Pinguela, um lugar com vista indescritível, que ele adorava e onde tinha um sítio desde 1957.

Lembro dele ter observado que o jangadeiro era bem espaçoso e que daria pra levar os 3 filhos, isopor com o frühstück, algum trago, etc.

À moda antiga
Engenheiro civil, construiu estradas, mas acima de tudo, bons amigos. E um barco também: uma réplica do Enige. O marceneiro contratado vergou as tábuas para dar o contorno do casco embebendo-as em óleo de linhaça, e com um maçarico a querosene, ia vergando uma por uma. Não usou pregos, mas uns pinos de cobre de seção quadrada, com cabeça e arruela, mas sem ponta, que era remanchada à martelo por duas pessoas. A impermeabilização entre as tábuas foi feita com cordão não lembro de quê, embebido em óleo. Tudo no barco foi feito à moda antiga, por capricho do meu amigão.


O Estrela
no pôr-do-sol da Pinguela (anos 70)

Estrela
O Estrela, que assim batizou para homenagear a terra dele, uma colônia alemã à beira do Rio Taquari, usava vela com carangueja. Com patilhão e bolina, o Estrela era a conta certa pras águas rasas da Pinguela que o encantaram à primeira vista.

Assim que o barco ficou pronto, foi levado lá pra lagoa, e lá está até hoje, só tendo saído para Porto Belo e outras praias de Santa Catarina em alguns veraneios da família.

Emprestando as cuecas
Nos anos 80 buscávamos um mercado alternativo na empresa da família. Meu irmão Celso, ainda guri, sugeriu fabricarmos pranchas de windsurf. O Velho topou. Fabricamos muitas Savage. Ele sempre nos incentivou. Uma vez, quando estávamos em dúvida sobre uma decisão a ser tomada, em vez de dizer o que deveríamos fazer, perguntou se queríamos usar as cuecas dele para ter a coragem de resolver a parada. Esse era o estilo do Velho.


Vista do avarandado em noite de luar

Histórias de Avarandado
Ainda na véspera de baixar a última vez ao hospital, me convidou pra assar uma costela de ovelha e bater papo "lá no avarandado". Mas essa fiquei devendo pra ele...

Era lá no avarandado do casarão do sítio, com uma vista esplêndida pra lagoa, que rolavam papos que jamais ocorreriam assim no mais. Lá o Velho conversava solto, empopado, e a cada conversa ficávamos mais cúmplices. Foram momentos muito especiais, num lugar paradisíaco.

Era o Velho, eu, e a jaguarada na volta. Histórias da família, do trabalho, da vida. Histórias dele. Segredos, truques e macetes, geralmente coisas que me surpreendiam.

Quando a gente se dava conta de ver as horas, era porque o dia já estava querendo clarear. Quanta conversa fora jogamos ali!...

Além das "histórias do avarandado", contou muitas outras, a maioria bem divertidas, bem como ele era. Desbocado pra mais de metro, e sempre com uma piada nova, gostava das coisas simples e práticas.

Foi-se então?
Sim, foi-se o Velhão.
Mas nem tanto!
Vai continuar a navegar a todo pano na minha lembrança e nas minhas idéias.

Nos últimos tempos, já meio atrapalhado, com os panos folgados, passou a reprisar algumas histórias. Pai, eu acho que tu já me contou essa... Eu sei, mas vou te contar de novo porque é muito boa! Só aí me dei conta do imenso prazer dele em reviver histórias que não podia mais reeditar.

Por fim, já bem fraco e sem muita conversa, continuava passando aquela maneira de ser alegre e muito simples, pelo jeito, nos gestos, no sorriso. Na coragem.

Não basta ser pai...
O Velho não era disciplinado. Era solto uma barbaridade.
Apesar de ser algo comedido, volta e meia dava-se o Direito ao Ph0*@-se! Que coisa mais fantástica isso de permitir ao coração, de vez em quando, arribar à todo leme pra cima da razão.
Citava ditados e frases, com alguma freqüência. Uma que nunca disse, mas sempre ensinou, foi: não basta ser pai, tem que ser bom amigo*.


O paraíso que o Velho tanto curtiu

Associo a canção "Veterano" ao meu Velho, que tanto lutou para conquistar o que teve,
e que veio sobrevivendo nos últimos tempos mais na coragem do que na força.

Tributo em versos

Gaitinhas de boca & Pensamento de gente da água

Vídeo com imagens do Paraíso do Velho

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(stream)


[Danilo Senger Ribeiro atracou aos 84 anos, em 2 de Agosto de 2004]

(*) Aos filhos jovens dita-se os rumos. Dá-se ordens. É uma relação comandante x tripulante. Com o tempo vem a parceria. Conselhos tomam o lugar das ordens e mais tarde apenas comentar é o bastante. Chega-se a um ponto em que perguntar por um assunto ou sutilmente lembrar um tema são suficientes para passar as idéias.