Peripécias de um padre
Antonio Vieira - 400 anos
Danilo Chagas Ribeiro

21 Set 2007
O "Cruzeiro Histórico Identidade e Cidadania", cuja sigla é CHIC, comemora os 400 anos do nascimento do Padre Antonio Vieira (1608-1697). O veleiro lusitano (foto ao lado) veio ao Brasil com escalas no Cabo Verde e na Ilha da Madeira, como parte da programação das comemorações.
Além de Salvador, o veleiro CHIC estará visitando cidades onde o famoso padre viveu. Atualmente o barco está no Ceará.

Livro e DVD
Um vídeo sobre o "cruzeiro histórico" foi apresentado pela Universidade de Aveiro, que apóia a missão. Nele, o comandante António de Abreu Freire diz que a primeira parada no Brasil será na "cidade da Bahia". Diz ainda o comandante, de cuja tripulação faz parte um cachorro, que eles estão equipados com GPS, previsão do tempo via Internet, e outros equipamentos que cita, e que Vieira não contava com isso em suas travessias...
As travessias do Pe. Antonio Vieira, como passageiro, foram difíceis. A do CHIC teve pane no leme (na foto abaixo, usando o leme de fortuna).


Uso do leme de fortuna do CHIC
na travessia do Atlântico

O tal vídeo informa ainda que o objetivo final "é a publicação de um livro e de um DVD desta longa jornada" (sic).

Um bom site de internet, com a obra completa de Vieira, com o conteúdo do tal livro e imagens do tal DVD, teria uma divulgação muitíssimas vezes maior, e com acesso a custo zero. Percorrer e fotografar ruínas, praias e prédios atuais, parece ser mais do interesse do desenvolvimento turístico do nordeste brasileiro do que da divulgação da obra de Vieira.

Aproveito o gancho do cruzeiro dos velejadores portugueses ao Brasil para divulgar um pouco sobre o Pe Antonio Vieira, mesmo tendo que arribar do rumo do Popa.com.br.

Piratas, ratos no convés, encalhe
Segue trecho da biografia escrita pelo falecido escritor português Orlando Neves, sobre a travessia de Vieira para o Brasil em uma caravela.

"O pequeno António refugia-se nos braços da mãe. Vai agoniado. A caravela que transporta a sua família em direcção a S. Salvador da Bahia no Brasil, balouça descontrolada na violência tempestuosa do mar.

A bordo, como era comum na época, as condições são péssimas. Mal se dorme, tal a quantidade de parasitas de todo o género de que o barco está infestado. Mesmo na coberta os ratos disputam ruidosas correrias, enfiando-se nos espaços mais ínfimos.


Caravela - velas latinas

A água doce já está imprópria para consumo, sai verde e com cheiro nauseabundo. O peixe em salmoura e as carnes salgadas com que todos se alimentam estão prestes a apodrecer.

Quase diariamente, a caravela é abalada pela movimentação dos marinheiros e das velas, tentando escapar à perseguição dos piratas holandeses. Não há a menor privacidade - passageiros e tripulação amontoam-se nos exíguos espaços disponíveis. E a viagem é longa, aproximadamente dois meses.

Já à vista da costa brasileira a embarcação estremece fortemente da popa à proa, tudo se parte no seu interior, o cavername parece ir despedaçar-se. É uma noite negra, povoada de faíscas e trovões, o mar revolta-se, os passageiros choram e gritam, acendem-se lanternas no negrume, o capitão dá ordens tonitruantes, nos porões os homens procuram detectar algum rombo.

A caravela está encalhada nos baixios arenosos e vai adornando para estibordo. Pensa-se no pior.

Na manhã seguinte, o pequeno António solta-se da mãe. Quer ver tudo, saber como se safará a caravela.

O dia amanhece com o sol em brasa, vêem--se, em frente, as florestas brasileiras, banhadas de luz dourada. Um batel puxado por remadores, consegue desencalhar o barco.

Enfunadas as velas, dirige-se para o Sul e nos fins de Janeiro de 1615 aporta à Bahia.

O futuro Padre António Vieira jamais esquecerá esta viagem penosa. Ora no sentido Portugal-Brasil, ora no de Brasil-Portugal, fá-la-á mais vezes e, praticamente em todas elas, sofrerá um naufrágio".

"Há Papas que conhecerão o inferno e pagãos que entrarão no Reino dos Céus"
(Pe Antonio Vieira)

Passando o sermão
Por que o Padre Antonio Vieira tornou-se tão notável?
Vieira viveu na época da Inquisição, caracterizada por perseguições e abusos do Vaticano. De tanto contestar as decisões da Igreja, o padre português tornou-se muito famoso e até confessor da corte em Lisboa.
Foi uma época de escuridão para a humanidade, retratada genialmente por Umberto Eco em "O Nome da Rosa"*.

Aí vai um sermão do Pe Antonio Vieira, embora bem fora do foco náutico. O Popa.com.br não expressa nenhuma posição ou convicção religiosa. O Sermão da Sexagésima, do ano de 1655, é transcrito aqui "como está", sem quaisquer comentários.

Sobre a debandada dos fiéis
"Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o Mundo fora santo. Este argumento de fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus.


Púlpito onde o Pe Antonio Vieira pregava, na catedral de Salvador, Bahia

Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? -- Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, por que não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus?"

"Afluências da parte do Céu"
"Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?

Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos.

Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E por que se perderam estas três? - A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva.

A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois por que não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva?
-- Porque o sol e a chuva são as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta do Céu, sempre é por culpa nossa.

Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? -- disse o mesmo Deus por Isaías". ("Sermão da Sexagésima", pregado na Capela Real, 1655)

Considerado um dos maiores escritores de língua portuguesa, o crítico do rumo da Igreja foi precursor dos direitos humanos, homem de negócios visionário, diplomata e missionário. Era da confiança do rei D. João IV. Depois de muitas andanças a serviço do rei pela Europa, desiludiu-se da corte e em 1681 voltou à Bahia dedicando a maior parte do tempo ao trabalho de edição dos seus Sermões. Vieira morreu na Bahia aos 89 anos.
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(*) Cenas do filme no YouTube (Sean Connery) e (Cena final)

Comentários: info@popa.com.br

Chegada do CHIC à F Noronha

 

Fundeado em Salvador

 

Bahia

 

Chic no trecho Aveiro-Madeira

 

Cidade Velha - Cabo Verde

 

Santiago da Ribeira - Cabo Verde

Fotos: tripulação do CHIC

 

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