Causo de uma pescaria atlântica
Surpresa na velejada noturna
Tau Golin

Conta-se que na primeira madrugada atlântica do veleiro Passatempo na subida para a Refeno em Recife, no começo de agosto de 2005, repentinamente, o Robinson (Cruzoé) acordou de forma abalroada a tripulação.

Pelo vergar do caniço que ia com linha de arrasto na popa, um peixe enorme teria sido fisgado.

O Adriano (comandante do Passatempo) levantou num atropelo com o alarme do lourenciano. Ainda sonolento, ordenou ao Selmo (Lugano) – grande produtor de alface no Lami, bairro de Porto Alegre, com o cargo de chefe de máquinas naquela navegada -, que desengatasse o motor para parar o barco e não rebentar a linha. Tudo era um breu. Pela carretilha, podia-se calcular que quase trezentos metros de linha 0,90 tinham sido estirados pela presa. O caniço mal suportava tanta tensão, na iminência de quebrar.

Dentro da noite, começava a faina para trazer o bicho até a popa e puxá-lo para cima. Operação lenta, expectativa agoniante.
Lentamente, a linha foi sendo enrolada.
Os três pescadores faziam planos para repartir aquele baita bicho com as tripulações do Entre Pólos e do veleiro Tarugo, comandado pelo Paulo Mordente, que estava nas imediações, rumo ao Rio de Janeiro.
Seria como um tributo após uma batalha, como uma condecoração do homem reconhecida pelo mar.

O Adriano recolhia parte da linha, mas a presa levava de volta outro tanto. Operação lenta, demorada, para não romper o tênue e invisível fio de nylon que unia o barco e o animal ainda imerso na água e na escuridão. Aos poucos, a astúcia do homem vencia.
Decerto, já demasiadamente cansado, um vulto enegrecido como a noite começou a delinear-se como um volume que ocupava um espaço móvel e crescente no breu.

Sim, era possível distinguir a sua nadadeira dorsal, grande, aumentada ainda mais pela lente da ansiedade e da noite. Ia se dar o entrevero final. Aos gritos, o Adriano pediu que trouxessem o gancho, o maldito gancho para pegar o bicho. Então, o Selmo, voluntário para todas as horas, entrou em ação.

Todavia, reconhecido míope e não enxerga absolutamente nada sequer na penumbra. Por isso, para a longa jornada de dois meses até Pernambuco, recorreu a um farolzinho irritante que, ao escurecer, fixava, através de um suporte, na testa. A sua luminosidade era torturante para os camaradas de convés, pois, fustigava sem pena as pupilas dilatadas com seus fachos que pareciam jatos de fogo.

Diante da emergência, dos gritos, dos empurrões e do bicho que vinha chegando na popa, o Selmo acionou a chaveta da lanterna, florescendo a luminosidade em sua testa, e precipitou-se pela escada da cabine, invadiu o banheiro, cuja segunda porta dava acesso ao paiol, atrás do instrumento aprisionador. Sua lamparina pós-moderna, porém, dependendo do acionamento da chaveta, alternava os vários tipos de focos, convertendo-se, inclusive, numa luz estroboscópica intermitente. Tapeando chaveta para todos os lados no rápido mergulho nas cavernas do barco, súbito, ligou o sistema alucinante.

E assim, transformando o apertado paiol em instantânea boate cheia de lampejos, entre cabos, gamelas, bacias, baldes, produtos de limpeza, vassouras, rolos de papel higiênico e escovões, o Selmo buscava o maldito gancho entre os fachos psicodélicos originados em sua fronte, os quais, na verdade, mais cegavam pelo contraste do escuro e do claro do que iluminavam, produzindo sombras pavorosas. Quando, por fim, atarantado, encontrou-o, deixou subir até o convés os resmungos de que o gancho estava trancado naquelas bugigangas e não conseguia retirá-lo.

“Deixa esta porcaria aí que eu puxo o bicho no braço”, irritado, engrandeceu-se o Adriano, já esgualepado pelo esforço e tendo que usar as duas pernas em forquilha para encaixar o caniço, talvez calculando os danos que poderiam advir de tal pescaria.

Então, os três se concentraram na faina final. Dariam o bote derradeiro no monstro. Tal história, certamente, se converteria em uma gauchada aquática. Assim estavam os três embodocados para unhar a fera de barbatanas negras e ameaçadoras.

De repente: Opa! Peixe não tem penas!

A barbatana era a asa emplumada de uma gaivota gigantesca, do tamanho de um albatroz, na qual havia enrolado a linha de pesca, sem fisgá-la. Tão surpresa quanto os velejadores estava a gaivota, cujo instinto fez com que chegasse distribuindo bicadas descarnantes para quem se aproximava.

Problema imediato: como soltá-la sem cometer crime ecológico. Em uma operação minuciosa, com a linha esticada, o Adriano encostou-a no espelho de popa e, com a mão direita, agarrou-a pelo dorso. Seu bico tentava atingir a mão de seu aprisionador.

Então, o Selmo, com os estrobos desligados que o transformara em um cometa em curto-circuito, foi-lhe à goela, imobilizando o seu enorme pescoço. Parece que neste momento, a gaivota olhou o Selmo de soslaio como se dissesse “você ainda me paga, oh do cavanhaque!”

Linha desenrolada da asa, os dois, simultaneamente, soltaram a bicuda para não serem atingidos pelo seu grande instrumento pinicador. Apesar de cansada, bateu “barbatanas” e sumiu na noite.

Quase no mesmo instante, a chaveta de contato defeituoso acionou novamente a luz intermitente da lanterna de testa, e o Selmo, naquele breu, parecia um enorme vagalume de cavanhaque sem condições de seguir o “peixão”.

Ao retornar da Refeno, uns sacanas acrescentaram mais um capítulo naquela pescaria. Diziam que pescadores testemunharam o aparecimento de uma gaivota estranha na lagoa do Casamento. Ela não pescava e somente comia grama e juncos tenros, recém brotados. Um biólogo, especializado na língua das aves, colheu o seu depoimento: ela jurou que estava em reeducação alimentar. Um esgoelamento marítimo lhe provocara um trauma e, por essas coisas da natureza, a transformara em vegetariana. Estava, aos poucos, conforme ia reaprendendo novos hábitos, rumando para o sul da capital gaúcha, pois ouvira que ali existiam fartos e saborosos canteiros de alface de um velho conhecido.

Ia ajudá-lo na colheita.

(Tau Golin)


Comandante Tau Golin no comando do Passatempo

 

Envie seus comentários ao popa.com.br:

Seu e-mail:



CLICK APENAS UMA VEZ