Guaíba, Rio e não Lago (II)
Cmte Knippling caça os panos!
Cmte. Geraldo Knippling*

O artigo de autoria do Cmte Geraldo Knippling "Guaíba, Rio e não Lago", publicado no popa.com.br em Dez/2003, recebeu comentários. Dentre eles, o do navegador Evandro Colares, em Mar/2004, citando publicação.

O Comandante Knippling mais uma vez demonstra seu vasto conhecimento sobre o assunto, contra-argumentando com muita propriedade a publicação citada pelo navegador visitante do site.

Evandro Colares escreveu:
Primeiramente gostaria de dizer que sou um admirador dos livros publicados pelo Comandante Knippling, porém não concordo inteiramente com a sua posição. Acredito que o assunto vai além da semântica, dos costumes culturais e das opiniões de burocratas. Para contribuir com a discussão sugiro que os interessados façam uma leitura esclarecedora no Atlas Ambiental de Porto Alegre, capítulo 3, página 37. Em termos ambientais é muito importante reconhecer o funcionamento do Guaíba como lago, uma vez que isso tem significativas implicações em seu conhecimento e estudo. Seja denominado lago ou rio, o que eu sei mesmo é que amo esse maravilhoso Guaíba. Saudações a todos!
Evandro R. C. Colares

Segue a matéria citada pelo Evandro:


ATLAS AMBIENTAL DE PORTO ALEGRE - Rualdo Menegat (coordenador geral). Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS. Capítulo 3: página 37. 1998.

Comentando o texto acima, Mestre Knippling contra-argumentou:

Com referência ao título em epígrafe, após receber cópia da página 37 do Atlas Ambiental de Porto Alegre, gentilmente enviada pelo Sr. Evandro Colares, tomo a liberdade de fazer mais alguns comentários sobre esse polêmico assunto. Fora de dúvida, o referido Guia é um trabalho sério e bem intencionado. Toda essa atual polêmica certamente gira em torno de argumentos objetivos e subjetivos. A meu ver, a afirmação do ilustre Saint-Hilaire, há dois séculos atrás, de que se tratava de um lago, não pode ser considerada, pois naquela época não haviam condições técnicas nem tempo para tal constatação. O que ele achou, todos nós também achamos: o Guaíba se parece com um lago. O Atlas Ambiental é falho quando diz que seis rios afluem ao delta; na realidade são quatro: Jacuí, Caí, dos Sinos e Gravataí.

No item 1): A formação do delta, como descrito, é muito natural devido à passagem de um grande volume de água, a configuração do solo e o material arenoso ou argiloso trazido pelos 4 afluentes. Isto certamente não configura um lago, já que todo este líquido não fica estagnado.

No item 2): Diz que 85% da água do Guaíba fica retida. Como é que isto foi medido? O Guaíba tem as duas extremidades livres, portanto as águas não podem ficar retidas a não ser que construíssemos uma barreira em Itapuã. Podem sim, escoar vagarosamente e até muito lentamente nos períodos de estiagem. Um toco que jogamos no Jacuí vai parar forçosamente na Lagoa dos Patos (a não ser que um vento forte o encalhe na margem). Já foi comprovado por fotos aéreas que efluentes poluidores (da fábrica de celulose) vão parar na Lagoa dos Patos, mesmo que diluídos ao longo do trajeto. Note também que, infelizmente, a maior parte do esgoto de Porto Alegre é jogada in natura no rio, de forma planejada, na altura da "Chaminé", levando em consideração a correnteza rio abaixo. Se assim não fosse ou se as águas ficassem retidas como diz no Atlas, o DMAE que capta a água para a população um pouco mais rio acima, nos Navegantes, estaria captando esgoto!

No item 3): O escoamento com velocidades diferenciadas poderia ser típico de um lago; só que um lago normalmente não escoa. Segundo o nosso conceituado dicionário Aurélio: Lago, é extensão de água cercada de terras. Num rio de grande largura como o Guaíba isto é muito comum, pois é evidente que o fluxo no meio do curso e nos canais é muito mais veloz que nas margens, onde até pode haver correntes transversas e redemoinhos, causados justamente pela diferença de velocidade e pela configuração da margem. No Rio Amazonas isto também existe e é considerado lógico e normal.

No item 4): Diz que os depósitos sedimentares das margens possuem estrutura de sistema lacustre. Mais uma vez, é uma afirmação muito subjetiva. Como, quando e onde foram medidos estes depósitos? Sedimentação pode haver em rios e em lagos. Qual é a regra que estabelece os limites entre depósitos de rio e de lago?

No item 5): Os cordões arenosos não são características únicas de um sistema lacustre, também os há nos rios, como no próprio Rio Jacuí ou então, um exemplo muito mais marcante que é o Rio Camaquã. Matas de restinga também há em rios; são abundantes no Rio Jacuí, que não é lago. Note também que grande parte da margem do Guaíba é pedregosa em vez de arenosa.

Pelo exposto, as características enumeradas no Atlas Ambiental podem ser qualidades de um lago, que muitas vezes encontramos num rio. Por outro lado, reforçando uma argumentação mais objetiva, as características de rio que encontramos no Guaíba não encontramos em lagos e são muito básicas, sobrepondo-se aos argumentos do Atlas, que são detalhes subjetivos.

Não podemos ater-nos a detalhes dessa natureza, relegando conceitos básicos, universalmente aceitos. Nos compêndios de geografia, mundialmente propagados, está claramente definido o que é rio e o que é lago. Mais uma vez, nosso conceituado dicionário Aurélio diz o seguinte: Rio é um curso de água que se desloca de um nível mais elevado para um nível mais baixo, aumentando progressivamente de volume, até desaguar no mar, num lago ou noutro rio. O Rio Guaíba é tudo isto. Seu nível na altura de Porto Alegre é mais alto que em Itapuã onde deságua na Lagoa dos Patos. Mesmo sendo o desnível pequeno, devido à pouca extensão, não deixa de enquadrá-lo nas regras válidas para um rio. Este fato lhe dá uma correnteza rápida nas épocas de enchente e lenta durante a estiagem, mas sempre constante. Jamais poderíamos jogar um toco na Lagoa dos Patos e esperar que ele fosse parar no Jacuí. Poderá haver corrente reversa momentânea, provocada por fortes ventos; mas não é regra. Não existe regra que possa modificar o inabalável fato de que as águas dos rios que deságuam no Guaíba, por ele fluem e por sua vez deságuam na Lagoa dos Patos, característica que lhe dá o nome de rio.

Chega-se à conclusão que os detalhes enumerados no Atlas Ambiental não tem consistência para modificar o básico. Sem qualquer demérito para o ponto de vista do Sr. Evandro Colares, amigo, navegador e explorador que considero e respeito, quer me parecer que colocando tudo na balança, esta certamente penderá para Rio Guaíba.

Geraldo Knippling

 



(*) Quem é Geraldo Knippling?

Comandante Geraldo Knippling. Capitão Am. Escritor. Cartógrafo reconhecido, com belíssimas obras publicadas. Ex-comandante da Varig condecorado com a Ordem do Mérito da Aeronáutica.

Velejador.

Um veterano do Rio Guaíba com méritos reconhecidos por todos os navegadores gaúchos. Um mestre da navegação.

Knippling é uma autoridade sobre o Guaíba. Fez cartas detalhadas do rio, plotando waypoints e determinando rotas de acesso para os mais recônditos recantos do Guaíba. Fotografou o rio como ninguém. Suas obras cartográficas e literárias, de conteúdo sem igual, são uma referência para todos os navegadores do Guaíba.

O mestre Knippling faz um apelo. O popa.com.br o apóia. Os navegadores do Guaíba também: este tema volta e meia surge nas varandas dos clubes náuticos de Porto Alegre e jamais se ouviu alguém a favor da designação modernosa do rio.

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Kleber Borges de Assis, premiado bacharel em Geografia, discorreu bastante sobre a designação do Guaíba em 1958. Em sua obra lamenta a qualidade da geografia investigativa no estado e diz que uma comissão de estudos declarou que "seja usado, até melhor juízo, simplesmente a designação de Guaíba, sem prefixo de especificação...".
Em Desconhecimento da Geografia, lê-se que "a denominação correta da Lagoa dos Patos é laguna Lagoa dos Patos". Isso mesmo: laguna Lagoa dos Patos!... Agora só falta o lago Rio Guaíba. Leia mais em Elucubrações Geográficas.

Danilo Chagas Ribeiro

 

O popa agradece o empenho de Evandro Colares e dos demais visitantes que opinaram sobre o tema.

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Em tempo
: [popa.com.br]: De modo geral, temos a tendência de considerar conteúdos publicados em livros como sendo verdadeiros, sem dar-nos o direito de questioná-los. É preciso segurança, maturidade e conhecimento de causa para questionar.
A exemplo disso, vejam a asneira que a "infalível" Encyclopedia Britannica (conhecida por Barsa) publicou. Uma reprodução de trecho da enciclopédia está quase no fim da página entitulada Movimento de rotação do vento (sub-título Ventos rondando x Ciclones rodeando).


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